Uma ideologia para o personagem

{ Postado em out 02 2007 por philsouza }

hello nietzeche

A piada sobre a Hello Nietzeche (Alô Nietzeche, hauhahauha) está reservada apenas a aqueles que conhecem sua ideologia ou leram o livro Quando Nietszeche Chorou…

Não confundam, muito cuidado. Uma coisa é você ter uma motivação, uma objetivo de vida, mesmo que do tipo os citados pelo Alberto (Mataram meu cachorro! Quero vingança!) outra é uma ideologia. Uma ideologia é um conjunto de regras morais que você assume para uso no dia a dia social. É a fé do Clerigo que por suas crenças não o deixa fazer certas coisas e o faz não agir como outros, por aquilo que ele acredita. Idem o paladino, outro exemplo do tipo.

Estou lendo agora Quando Nietzeche Chorou e começo a entender por que após esse livro, esse filosofo começou a ganhar popularidade. Não me parece ser sua ideia de que se abstendo de qualquer esperança, de qualquer fraqueza (dentre elas a religião, deus e o que for) o homem encontre seu verdadeiro ser, as grandes verdades. Acho difícil. Nietzeche se tornou popular por que vive aquilo que acredita, sua ideologia espartana (esse termo já esta se popularizando) e essa integridade é que apaixonou muitos. Seria isso o mesmo nos grandes líderes? Em sua grande maioria grandes pensadores que vivem em favor de sua ideologia.

O chato é que vejo poucos jogadores que fazem isso. Não que eu queira que meu grupo seja um bando de filosofos existenciais (seria isso uma redundancia?), mas existem ideologias perigosas, para vilões por exemplo, e dignas de bons personagens para jogadores. OU podemos trocar os papeis já que hoje jogadores muitas vezes preferem ser mais “maus”…

Como vilão, como uma ideologia, alguém ai já ouviu falar da doutrina de hitler?

Nós mesmos temos as nossas, podem não ser ideologias que movam nossa vida, mas que movam nosso comportamento em uma área dela. Meu pai me ensinou sobre trabalho e respeito, sobre sacrifício e recompensa, ele é um exemplo direto e por isso faço o mesmo que ele. Por que um jogador não importa a época, era ou mundo não pode também ter algo assim?

A Ideologia de um personagem torna ele forte, interessante, pode causar problemas também, mas isso pode ser divertido, é só os jogadores saberem entrar no personagem. Quem já leu a trilogia de DragonLance conhece a historia de Sturm Montante Luzente e sua busca por se tornar como seu pai um Cavaleiro de Solamia e em seguir o código dos mesmos sabe. Todos viram os problemas que ele teve por causa disso. Isso ajuda a dar mais vida a uma historia e torna ainda mais um personagens difícil de esquecer.

Muitos mestres não acham justo obrigar um jogador a criar suas historias. Em fantasia medieval a desculpa de “sou aventureiro, estou em busca de riquezas” já não aceito mais desde tempos remotos do 3D&T… Ao invés disso, insentivo meus jogadores a criarem historias e caso envolvidos em situações que mexam com suas motivações lhes concedo um bônus moral. Pode ser triste falar assim, mas alguns jogadores tem de ser habituados a interpretar, então nada como uma troca inicial, uma compensação.

Certos sistemas, como o livro de RPG do Warcraft Online que dá pontos heroicos e você somente os recupera com novos atos heroicos. Um sistema de feedback interessante aonde o jogador se arrisca para salvar alguém, faz algo imprevisível e digno de alguém de coragem e ganha pontos heroicos que podem ser usados na hora como um insentivo, um retorno a determinação. Tudo bem, vamos colocar que o mestre deve ter cuidado nesse caso, nada de jogadores super herois, salvadores de todos ou jogadores kamikazes que pulam na frente de tudo para ganhar pontinhos de experiência. Jogadores inteligentes e muito “gamers” podem ser chatos…

Enfim, ter um código moral a seguir é uma ideia que enriquece a historia de um personagem e deixa grandes herois e vilões muito mais interessantes. O que eu não quero é que os jogadores pensem, e quase sempre eles pensam, é que ter uma ideologia é se “limitar”. Me parece que quando você cria algo assim, de certa forma seu personagens acaba abrindo muito mais o leque, por que as decisões antes comuns de um jogador podem ser mudadas agora que ele segue uma nova visão.

Isso me lembra de Vinn Moraust, um mago que criei para ser o personagem central da minha campanha anterior (que acabou ridículamente por causa de falta de maturidade dos jogadores, é a vida…) e que liderava uma exercito mercenário inspirado na Black Company, um romance que não li, mas com certeza quero ler quando tiver oportunidade. Já falei sobre Vinn aqui no blog, ele e sua ideologia, sendo um mago adivinho ele acreditava que não havia um destino manipulado por divindades, uma mão (ou mãos) que movia e regia os acontecimentos. O destino era o resultado das ações humanas, mas a imensa combinação e ações, esse imenso efeito dominó que por um simples ato pode se tornar algo muito maior mais a frente (Teoria do caos? Alguém conhece?).

Vinn acreditava que o problema é que por meios humanos era impossível ver tais resultados. Mas por magia arcana sim. As magias de adivinhação que previam o futuro seriam responsáveis por calcular esse grande problema e dar a resposta e mais que isso, para Vinn isso significava que não importa o que você faça, isso é muito importante para você e para os que estão em volta, que por mais pequeno e simples seus gestos, eles podem definitivamente mudar o mundo, uma conseguência direta de sua ideologia e que era o tema da minha campanha.

Vinn morre na segunda sessão de jogo, ele já sabia que iria morrer, mas sabia que algo muito ruim aconteceria após sua morte e por anos planejou uma forma de mudar isso, e com sua morte acolheu como lideres da Legião Negra os personagens jogadores, a principio uma ideia louca já que eles eram estranhos para os comandantes que lutavam com Vinn, mas eles teriam muita importancia mais a frente. Vinn viu o futuro com sua magia e adicionado novos elementos ao calculo criou um novo caminho a equação.

Percebem como a ideologia de um homem moveu uma historia? Esse final de semana comentei sobre esse mago para meus jogadores e a incrível capacidade de mesmo após morto continuar a aparecer, não como espírito, mas sim por seu legado e seus planos que sempre guiavam os jogadores mesmo após a morte…


8 Responses to “Uma ideologia para o personagem”

  1. um bom exemplo disso é o mestre jonas.
    a historia dele tá aqui: http://goear.com/listenwin.php?v=f088bc0

    o cara é fantástico!

  2. Simplesmente perfeito. Uma coisa que meu antigo grupo de Rpg sempre teve dificuldade de fazer era criar histórias mais complexas que “meus pais/parentes/amigos/enteados/cachorros morreram, então virei para me fingar”. Quase sempre, quando era eu a mestrar, eu perdia a vontade por conta dos jogadores que achavam minhas campanhas enfadonhas demais, justamente por conta de sempre querer que eles tivessem objetivos concretos dentro da história, ou ações condizentes com seu pensamento.

    É uma tarefa difícil para alguns jogadores pensar dessa forma. Na verdade, eu acredito que são poucas as pessoas que conseguem pensar no personagem, escrever uma história interessante, botar fraquezas e virtudes que vão além da ficha de personagem e, ainda, durante o jogo, se tornar definitivamente “o personagem”.

    Para mim, que sempre joguei em um grupo “então vocês entram na masmorra”, isso seria como ir para o “céu dos jogadores de rpg”.

    Quando ao livro “Quando Nietzche chorou”, eu não consegui terminar de ler o mesmo, mas depois deste post, vou rever minha posição e tentar encarar novamente este livro que, nteste post, se revelou bem maior do que eu sequer imaginava.

    Outra coisa, eu estou tendo uma idéia de meme e queria compartilhar com você a idéia antes de publicar. Já que todo mundo só sabe falar de D&D4, Gurps 4 edição, WoD reformulado, porque não falar sobre sistemas da casa? Eu vou montar o texto do meme e posto para você. A idéia é fazer uma breve citação de um sistema da casa, e regras que fazem ele especial e diferente … O que acha ??

    Bom, é isso … Acho que me extendi demais para um comentário. Tá quase virando um post isso aqui hehehehe … Até logo !!

  3. Sem problema rapaz. Quanto ao grupo você tem que estimular aos poucos os jogadores e agirem mais com sua historia. É algo que é feito aos poucos, o amadurecimento do o que é rpg varia de jogador pra jogador…

    O livro do Nietzeche é cansativo as vezes, mas leia até o final, é um confronto intelectual (pense assim que vai ajudar a ler com bem mais vontade) muito interessante.

    Quanto ao meme você diz sobre cada blogueiro falar sobre sistema mais usado no seu grupo e suas vantagens? bom, o chato é que vai cair muito no velho D&D.

    Uma dica, faz o seguinte, faça um meme aonde o blogueiro recomenda e faz a resenha de um sistema/cenário alternativo, que não é famoso. Vai ficar muito mais divertido e diversificado!

  4. Não, minha idéia foi falar dos sistemas da casa mesmo, aqueles bons e velhos sistemas criados pelo narrador e seus jogadores para sair um pouco da rotina dos grandes sistemas. Eu acredito que muitos mestres já fizeram isso antes da febre D&D …

    Eu mesmo, tenho vários, para várias ambientações … E estou juntando todos numa mitologia que estou criando, que envolve um mundo de fantasia semi-medieval semi-futuristico com o mundo real. Pretendo fazer um sistema que embarque as características desses sistemas que criei com meu grupo, que se intitulava “Sociedade do Dado Viciado”, e cada livro tinha como nome um dado diferente, que era usado como principal no sistema em questão …

  5. Interessante. Se for fazer me convide que eu aceito.

  6. Ideologia não é vestir roupas diferentes, nem mesmo agir diferente, mas sim é ter a ideologia como um filtro para nossas percepções!!! isso é o q nietzche tambm buscava,
    e a figura do gato diz respeito aqueles q roubam nossa ideologia…

  7. Opa! Com certeza tutu! Esse post meu gerou bastante discussão! Não conhecia essa história por tras do “Hello Nietzche”.

    Seja bem vindo ao Dados Limpos!

  1. 1 Trackback(s)

  2. COMO CRIAR BIOGRAFIAS DE PERSONAGENS DE RPG? « Camilo RPG

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