O curioso enigma do caçador de golfinhos - Interpretação no RPG



Temei jogadores infiéis! Os golfinhos estão chegando! Corram!

Ocorreu uma discussão no Orkut relatada por meus jogadores que me parece muito interessante comentar aqui. Um mestre ou jogador, agora não lembro, relatando sobre um jogador inexperiente que ao começar como um ranger em uma aventura, sem saber qual tipo de animal escolher como inimigo predileto, pediu a ajuda do mestre. O mestre por sua vez ao perceber que a historia do jogador envolvia um historico de vida no mar recomendou que o jogador escolhesse como inimigo predileto animais marinhos

O fato é que enquanto alguns apoiavam e batiam palmas para o jogador, outros riram de cair no chão e apelidaram o pobre jogador de caçador de golfinhos. É fato que aventuras dentro do mar não acontecem o tempo todo em D&D…

Você após ler a historia já deve ter sua opinião de que lado você esta, entre quem bateu palmas ou quem chamou o individuo de caçador de golfinhos, não é?

Vamos embaralhar um pouco, vamos deturpar nossas convicções. Vamos pensar como o outro lado…

Lado dos que apoiam o Mestre

Um jogador que segue sua historia (só o fato dele criar já pode ser um milagre) é algo realmente muito bom. D&D não é o RPG que mais incentiva a interpretação definitivamente, e isso se percebe pelas curiosas dicas de como interpretar que se encontra no livro. Uma piada interna entre meus jogadores é a sugestão dada de contar piadas que foi, ou mal traduzida ou é péssima mesmo… Meu jogador falou que se fosse assim tão fácil interpretar, ele iria com um livro de piadas para a sessão e antes de um momento importante iria parar tudo e falar: “calma ai! Vocês conhecem aquela piada do papagaio…”

Muitos jogadores (não só de D&D) não criam historia, e as vezes nem nomes de personagens. A interpretação morre ai. Culpa dos jogadores? Uma ova! Cada um dos meus jogadores tem uma historia e com ela eu trabalho minha campanha junto com minhas ideias. Se o mestre exigir background, o que os jogadores vão fazer? Se os jogadores não souberem é só o mestre ajudar. Nada mais justo. Alguém tem que ajuda-los a dar o primeiro passo.

Mais que isso, interpretar gera um jogo muuuuito mais divertido e cheio de possibilidades. Não jogar assim torna o jogo robotico, com o mestre “levando” os jogadores com sua historia, sem a devida interação. Isso é chato, eu confesso.

Lado dos que apoiam a boa utilização das regras

Prefiro nomear assim esse lado. “Lado que apoia o jogador” não me parece a definição correta.

RPG é diversão! Se você não se diverte qual é a graça?!? De que adianta um mestre contente com jogadores insatisfeitos?!? Por que o jogador não pode simplesmente escolher um inimigo natural mais interessante dentro das possibilidades de sua historia? Se o jogador ficar insatisfeito com seu “caçador de golfinhos” mais a frente, em uma proxima aventura como vocês acham que ele vai jogar?

Ele vai ver a desvantagens com relação aos outros jogadores e vai fazer o mesmo que eles. Ou em casos piores, como já conheci, ele vai continuar seguindo a linha do mestre e o mestre acaba mesmo que sem querer, favorecendo esse jogador que joga conforme ele quer. Isso gera desnecessárias discussões sinceramente muito chatas… Nem vou citar a piada gerada na DragonSlayer sobre o Foco em Pericia (artesanado em miçangas), vergonhoso demais acreditar que mestres façam isso…

Olhe ranger! Prepare agora seu ataque, o inimigo esta na sua frente!

Qual é a verdade dentro dessas duas afirmações? Acho que ha verdade em um pouco das duas. O fato que se esquece sempre, é que a culpa nesse caso é sempre do mestre e não dos jogadores. Reparem que nas comunidades do Orkut, esta cheio de mestres chorando e falando que ninguém os ama, ninguém quer eles, que seu jogadores são feios, bobos e maus…

Vou usar uma citação feita em Malditos! Regras Azevedianas para um cenário de RPG, que achei excelente para explicar o que vou dizer:

Há testes para que a gente possa saber o que acontece no mundo de jogo quando alguém executa uma ação e ela gera modificação. Eles exigem a descrição dos componentes do cenário em estatísticas numéricas, em abstrações. A mistura do teste e da estatística se chama regra; as diversas regras, como vimos, formam o sistema.
Assim, a regra é a ponte que atravessa de lado a lado o abismo entre a realidade e a virtualidade.
Sistema e cenário não se confundem.
Cenário, ou virtualidade, designa o espaço e o tempo imaginários onde construímos o Role Playing Game enquanto estória coletiva em tempo real.
Dispomos da regra e da interpretação como caminhos de acesso ao cenário. A primeira tem um caráter abstrato: ela quantifica o mundo de jogo de modo que o possamos entender. A segunda, contudo, é dona de um caráter material, qual seja concreto, e com ela podemos compreender o mundo de jogo com cores, sons, sentimentos, alturas, contornos — enfim, com uma alma.
Impossíveis regra e interpretação solitárias por causa da ausência de contexto.
A regra garante à interpretação a espontaneidade e ao jogo do RPG a imprevisibilidade sem a qual se descaracteriza.

Regras e Interpretações separadas geram ausencia de contexto. Mas perceba que Sistema e Cenário jamais se confundem. Na falta de bom senso, muitos mestres acham que interpretar é limitar o jogador dentro de sua historia. O mestre não deve passar isso para o jogador senão haverá um efeito reverso na sua intenção. Mas jogar com um personagem que não tem o menor sentido, que não tem nenhuma relação entre regra e sua história também seria impossível… No final, as regras e a interpretação dialogam, mas funcionam de forma independente, pelo menos quando falamos de jogadores experientes. Como assim?

 

Tenho jogadores que podem jogar com o que for, com “o combo” que for, no sistema que for. Com a criatividade que é deles por anos de jogo eles criam uma historia sobre as regras. Assim está formado um personagem “combado”, mas que por incrivel que pareça tem uma boa explicação para tudo. E mais. As vezes o jogador que se limita não interpreta e não interage com nada, enquanto aquele jogador combado pode jogar seguindo exatamente seu background, agindo como qualquer mestre gostaria de ver seu jogador. Eu sei, por que sou assim, tenho jogadores assim e já conheci varios assim. Mais que isso, sei por que saber interpretar não tem absolutamente nada haver com habilidades de combates.

Então o mestre do caçador de golfinhos estava errado? Sim. Mas não totalmente. Acho que a responsabilidade do mestre quanto a jogadores inexperientes é muito grande. Ele deve saber dar liberdade e mostrar para o jogador que as regras ajudam ele, mas com a interpretação ele terá a verdadeira interação com cenário. Se o jogador experiente resolver jogar com o nosso YO!-WillySlayer, qual seria o problema? Nenhum. Ele escolheu por que quis, problema dele. Ele tem que fazer isso mesmo, se divertir. Ele vai saber se virar. E caso nosso ranger inexperiente jamais tenha muitas aventuras no mar? Estaria eu sendo maldoso em dizer que ele iria se sentir um peixe fora d’agua?!?

*Valeu Kajiya, é miçanga e não missanga. Burro eu não?

14 Respostas para “O curioso enigma do caçador de golfinhos - Interpretação no RPG”

  1. Eu acho que uma boa parte da responsabilidade é do jogador. Mas eu sempre penso no meu grupo de rpg, em que todo mundo joga a um tempo e tem uma certa experiência.
    Se o cara é novato, o mestre tem uma responsabilidade maior.
    Só como nota, a gente é tão crica que até em D&D fazemos prelúdio de personagem…

  2. Eu acho legal prelúdios. Só que em D&D já é tão demorado para começar a jogar por causa de tanta coisa para anotar…

  3. Na minha opinião tá ok pro cara pegar “foco em miçangas” (escrever foco em perícia (artesanato em miçagas) é muito cansativo, então abreviei para foco em miçangas. Pera um pouco! Assim ficou longo demais!), desde que ele tenha um background legal por trás disso… Assim como ele ter inimigo predileto os golfinhos. Background pra mim, deve ser independente do que vai acontecer nas aventuras do mestre, tornando o personagem plausível… Claro, existem excessões, não acho que um ninja saido de Naruto irá dar certo em um jogo de espionagem no mundo moderno…

    o/

  4. Não ha problema se o cara quer pegar foco em miçangas…

    Mas o mestre tem que tomar cuidado ao exigir certas coisas, ele tem que entender que as regras trabalham com o background, mas certas habilidades combate não tem xongas a ver com background… Ataque poderoso, trespassar… isso por que estou citando D&D.

    Não confundam habilidade de combate com historia… Certas vez perguntei pra um jogador meu qual a historia dele e ele falou assim mesmo:

    “Po, uso uma espada, estrelas ninja e sou tão veloz como o Hiei! ”

    Se isso é historia, meu Deus…

  5. A primeira regra do RPG, não se preocupe com regras..

    um grande problema dos jogadores, é que eles sempre tentam criar o personagem perfeito.

    Já cheguei a experimentar colocar um defeito em cada personagem
    mais um defeito mesmo, tipu.. um Bárbaro muito forte sem um braço..

    ou um cara que só vira se for para a direita, imagine ele em uma batalha!
    Poi então.. O RPG ficou divertido e ninguém brigou, assim na outra campanha ele resolveram criar personagens diferenciados e quebrou a história de um Herói perfeito.

    Funciona hehe.. ^^

  6. Eles nunca vão conseguir um personagem perfeito Cid, mas buscar personagens melhores, mecanicas boas é uma forma de jogar, desde que o jogador não passe a considerar só isso o RPG…

    Mas a ideia de colocar defeitos é divertida. Um dos melhores grupos que me divirto até hoje lembrando, jogava 3D&T no mundo de Arton e tentava sobreviver a propria carga excessiva de defeitos que colocaram a si mesmos…

    Você já viu um clerigo do deus da trapaça que se por acaso roubar ou enganar alguém ( que é o pré requisito para ele manter seus poderes concedidos ) algo de ruim acontece a ele? (maldição)

  7. Putz… e eu que o único RPG que joguei foi há cerca de 8 anos atrás e era um 3D&T (que aliás eu nem sei o que é…) de Pokémon… patético não? Mas gostei do blog… parabéns!

  8. Hahahaa… rapaz e seu falar que comecei a jogar também com pokemon e nem foi em 3D&T?!? Foi um rpg doido desenvolvido pela mente doentia de meus primeiros amigos rpgistas…. procura no buscador do blog “pokemon” você vai ver…

  9. A respeito do caso “Caçador de Golfinhos”:
    Bem… Como educadora, sou obrigada a dizer que a culpa é do mestre! XD Porque jamais deve-se pegar um “aluno” totalmente inexperiente e dar uma equação do segundo grau para ele resolver, sendo que o pobre nem sabe o que é 2+2.
    (E isso pq eu nem ensino matemática)
    Mas acho que vc entendeu.
    Se o jogador era mesmo inexperiente, a obrigação do mestre era dar para ele algo com que pudesse trabalhar, algo que estivesse ao seu alcance.
    Eu confesso que só joguei RPG uma vez, num sistema louco que nem sei qual é, com um grupo de amigos muito experientes que foram super legais e pacientes me dando dicas do que fazer para ter um personagem legal. E simplesmente AMEI RPG e sou louca pra jogar de novo!
    Agora, se eu tivesse começado com um grupo de jogadores experientes e “babacas” que se acham o máximo e gostam de tirar vantagem em cima dos mais inexperientes, provavelmente teria odiado o RPG e me tornado uma dessas pessoas que acham o jogo prejudicial ao desenvolvimento das pessoas. ¬¬

    Em resumo… Acho que não importa de quem é a culpa. O fato a ser observado é a falta de consideração daqueles que não souberam compreender a situação do jogador e não fizeram absolutamente nada para ajudar.
    Isso é babaquice em massa! ¬¬

    Agora, a respeito do seguir as regras e interpretar:
    Eu, pessoalmente, acho o RPG muito mais legal quando é interpretado e, principalmente, improvisado! XD
    Odeio aqueles sistemas em que eu digo “vou subir as escadas” e o mestre diz “faz um teste de habilidade”.
    Mieeeeerda!! Eu tenho DUAS PERNAS e as uso MUITO BEM! Pra quê fazer teste de habilidade? Eu to subindo escadas! >__<
    Não… Eu não jogo esses sistemas, mas costumo ver meus amigos jogarem e, como sempre me empolgo com a história que decorre, esse tipo de situação sempre quebra o clima e me deixa fula da vida! ¬¬
    Acho que as regras são necessárias, como em todo jogo. Mas um pouco de bom-senso na hora de criá-las não faz mal a ninguém…

    Fala sério… Teste de habilidade pra subir escada… ¬¬

  10. Na realidade hydra deve ser a primera vez que eu encontro alguém que me fala que pediram testes para subir uma escada…

    Só se ela exige muito mais para subir que o normal, sei lá, ele precisa subir muuuito rápido, ou coisa assim. Senão é neurose. Não lembro qual o titulo agora hydra já comentei sobre RPG com menos regras ou sem nenhuma, como já joguei no começo.

    Quanto a jogar rpg, se você e seu namorado forem em algum evento grande pelo centro do Rio quem sabe a gente não participa de uma historia? Quase todos meus jogadores vão nesses eventos e uma tem até uma empresa que produz roupas para cosplay.

  11. Caçador de Golfinhos :D huahauhaua muito boa!

    Minha humilde opinião: Existem 2 tipos de RPG: o de regras e o de interpretação, e adivinhem, eles são na verdade o mesmo tipo. OK OK isso é exatamente o que estão falando, mais ou menos….

    Existem muitos fatores que influenciam na forma de como o RPG é jogado… Sou jogador PhD, e tenho algumas aventuras (campanhas em RPGês correto :D) como mestre. Um desses fatores é o mestre, ele tem seu grau de responsabilidade. Jogadores, eles também tem seu grau de responsabilidade. Aventura, história e sistema formam o terceiro grupo.

    Uma seção pode ser mais ou menos combativa ou representativa (o que não é exclusiva uma da outra) dependendo de como o mestre enfoca as coisas. Ainda pode ser mais ou menos interpretativas dependendo de como os jogadores encaram suas ações. Construir um personagem começando pela planilha ou pela história, a meu ver, não tem diferença nenhuma no resultado final. E qual é o resultado final? DIVERSÃO.

    Explico, uma seção realmente interessante não é aquela que não existe nenhum combate, ou que os personagens enfrentam os mais temíveis inimigos sem sequer saber seus próprios nomes. Mas sim aquela que as pessoas envolvidas vão para suas casas com a cabeça cheia de idéia e histórias para a próxima seção (seja idéias combativas ou interpretativas) e com um sorriso bobo no rosto. E fazer isso sendo um jogador ou mestre não é tão fácil como parece.

    Existem jogadores que gostam de pilhar-matar-destruir, e outros de convercer o Grande Dragão Ancião a soltar a pequena princesa usando grandes discursos épicos. E esses jogadores estão sentados na mesma mesa a maioria do tempo (com exceção de algumas idas aos banheiros e pra pegar a pizza). E mesmo assim uma seção combina efeitos dos dois aspectos em diferentes quantidades. Esse equilibrio é ocasionado pela atuação do mestre e dos jogadores e também da história envolvida.

    Minha opinião é a seguinte, não existe jeito certo ou errado, na verdade não existe jeito. Cada mestre tem seu feeling, cada jogador tem suas atitudes, cada história tras desafios diferentes. E que no final o que conta é o sorriso bobo no rosto das pessoas. Eu particularmente gosto da parte criativa do RPG, seja vasculhar enormes quantidades de livros pra achar aquele talento que vai te ajudar a enfrentar o próximo combate, seja uma história de vida completa e cheia de nuances.

    Já tive jogadores que fizeram 15 páginas de história (personagem nível 1 acreditem ou não), e já tive jogadores que todos os personagens se chamava Conan e eram bárbaros da mesma família. Tudo é uma questão de DIVERSÃO!

    PS: eu sou educador de matemática :DD

  12. Só pra manter a discução em alta, os jogos em que eu mais interpretei foram mestrados em GURPS, e os que mais houve porradaria foi Vampiro…. às vezes o talento do mestre transparece…

  13. No final, esse “samba do criolo doido” com jogadores e mestres tão heterogêneos na forma de agir é que deixa a coisa divertida. Diversão com certeza Magus, mas perder algum tempo discutindo esses assuntos também tem sua diversão (o caçador de golfinhos que diga!). Que bom, mais um educador e jogador de rpg.

  14. […] O combo em si nunca foi proibido por mim ou pela wizard, já falei aqui que se o jogador quiser, ele é combado e interpreta muito bem. […]

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